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100 anos do nascimento de Antonio Candido – Por Luana Siqueira

Professor dedicou-se à pesquisa da Sociologia e da Literatura, construindo uma extensa e respeitada obra críticaDescrição: Share via WhatsApp

Professor emérito da FFLCH, que completaria cem anos, teve papel fundamental na história da Faculdade e no pensamento brasileiro. (Arte: Renan Braz)Há cem anos nascia Antonio Candido de Mello e Souza, cuja trajetória intelectual se confunde com a da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH). Ele fez parte das primeiras gerações de alunos da então Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras da Universidade de São Paulo (FFCL-USP) e, ainda jovem, tornou-se, também, seu professor.

Dedicou-se à pesquisa da Sociologia e da Literatura, construindo uma extensa e respeitada obra crítica. Em 1961, no curso de Letras, criou o Departamento de Teoria Literária e Literatura Comparada. Falecido em 12 de maio de 2017, o professor continua sendo uma das referências principais para a formação de gerações na FFLCH e em cursos de humanidades em todo o país.

O pesquisador Max Luiz Gimenes, que fez o mestrado sobre a trajetória de Antonio Candido, falou sobre a contribuição do professor para o pensamento político-social brasileiro. Confira:

Serviço de Comunicação Social: O que faz de Antonio Candido um dos principais nomes da intelectualidade brasileira do século XX?

Max Luiz Gimenes: Não sei se a consagração praticamente unânime de Antonio Candido pode ser atribuída a uma única causa. É provável que, na verdade, existam várias. Eu então destaco duas, que me parecem essenciais e estão ambas relacionadas à ideia de diversidade, tanto de sua atuação como de seu pensamento.

Na atuação, a diversidade das frentes foi algo que se desenvolveu desde muito jovem. Quando ingressou como professor assistente da cadeira de Sociologia II da então Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras da Universidade de são Paulo (FFCL-USP), em 1942 (portanto, entre 23 e 24 anos), ele já publicava artigos de crítica literária para a revista de cultura Clima, que fundara no ano anterior com colegas de Faculdade, e iniciava também sua militância política na tradição socialista democrática ainda incipiente no país, no Grupo Radical de Ação Popular (GRAP), que fundou com seu grande amigo Paulo Emílio Salles Gomes nesse mesmo ano. Dessas frentes, ele abandonaria na maturidade apenas a das ciências sociais, porém deixando trabalhos fundamentais que são lidos até hoje, como sua tese de doutorado Os parceiros do Rio Bonito.

E no pensamento que acompanhou a atuação nessas três frentes, ciências sociais, crítica literária e militância política, pode-se observar a mesma abertura para a diversidade. Ele sempre buscou combinar o fundamento marxista de seu enquadramento da realidade, que não era autoproclamado nem tampouco dogmático, com as tradições desses campos específicos, como com o “close reading” na crítica literária, a antropologia de língua inglesa com que teve contato por influência de Emílio Willems nas ciências sociais e a tradição radical de interpretação do Brasil na militância política etc.

Serviço de Comunicação Social: Quais foram suas influências?

Max Luiz Gimenes: Eu acrescentaria o ambiente familiar propício, que era de incentivo à cultura desinteressada e de afastamento das necessidades materiais imediatas, facilidades que devem ser levadas em conta e que em nada o diminuem, ao contrário, na medida em que buscou utilizar essa posição de privilégio para defender e praticar atitudes democratizantes, o que vai na contracorrente do que seria seu destino social “natural”.

Nesse sentido do ambiente familiar, é digno de nota ainda que seu pai e sua mãe possuíam cada um sua própria biblioteca, e que o pai de Candido lhe comprava livros sobre a realidade brasileira, por exemplo a coleção Brasiliana, que tinha como um de seus autores justamente Sílvio Romero, sobre quem ele escreveria uma tese em 1945.

Além disso, vale indicar também a influência formadora da imigrante italiana Teresina Carini Rocchi, uma amiga de sua mãe que, ao contrário desta, era ateia e anarco-socialista, por meio de quem ele teve então contato com a literatura socialista e também com os círculos socialistas de São Paulo, aos quais ela era ligada. Fazia parte desses círculos o prof. Antonio Piccarolo, crítico de um socialismo que aplicasse ideias estrangeiras ao Brasil sem pesquisá-lo em sua própria realidade concreta, como fazia o antigo Partido Comunista do Brasil (PCB). Esse interesse em descobrir a realidade concreta do país seria reforçado posteriormente na Faculdade pelos professores da missão francesa, como Roger Bastide e Jean Maugüé.

Serviço de Comunicação Social: Como definir a vasta produção de Candido na academia?

Max Luiz Gimenes: Além da divisão em frentes de atuação, de que já tratei anteriormente, costumo trabalhar também com uma divisão cronológica em três fases, buscando dar conta de acompanhar o desenvolvimento da trajetória de Candido, o que do ponto de vista político, que é meu tema de pesquisa, parece funcionar.

Essas fases são: a de juventude (até 1954), marcada pela conversão ao socialismo e o ingresso em ciências sociais até o afastamento da sociologia e da militância partidária no antigo Partido Socialista Brasileiro (PSB); a de amadurecimento (1955-1973), marcada pela contingência da migração institucional tardia para a área de letras (que não pôde se concretizar em 1945 devido a uma controversa derrota em concurso para a cadeira de Literatura Brasileira da Faculdade), do golpe civil-militar e da ditadura; e a de maturidade (1974 em diante), marcada pela consolidação de sua consagração como intelectual, sua aposentadoria da Faculdade, a participação na fundação do Partido dos Trabalhadores (PT) e o esforço de memória e de sistematização da experiência vivida. Essa é apenas uma esquematização, e seguramente comporta certa margem de arbitrariedade, mas tem me ajudado a pensar a trajetória política e intelectual de Candido.

Serviço de Comunicação Social: Como a leitura de seus livros nos ajuda a pensar questões do presente?

Max Luiz Gimenes: Essa pergunta poderia ser respondida de várias maneiras. Vou, então, fazer um recorte e falar sobre como creio que a obra de Candido pode ajudar a pensar questões do presente, mas tendo em mente aqueles responsáveis na atual divisão do trabalho por essa atividade específica, a produção de conhecimento. E, nesse caso, eu responderia dizendo que o que me parece essencial é seu compromisso, como intelectual, com a formação de uma nação de cidadãos integrados, que assim possam efetivar a democracia brasileira e construir, por meio dela, a nação que desejarem.

Candido defendia uma ideia de socialismo como “modo de ser” que se traduzia de diversas formas além da intervenção propriamente partidária, desde o âmbito da relação interpessoal, de que é exemplo a amizade com Florestan Fernandes, até o âmbito da produção de conhecimento. Esse “modo de ser” implica uma disposição de abertura e interesse genuíno pela perspectiva de outros concretos, principalmente se excluídos ou invisibilizados, os quais num país de realidade periférica não faltam. Ao entrar em contato com essas perspectivas, o intelectual poderia integrá-los ao debate público como problema sobre o qual deliberar coletivamente. Essa tematização dos excluídos ou invisibilizados é atitude que teria se desenvolvido na Faculdade com sua geração, o que ele chamou de “radicalismo sociológico”, e que pode contribuir com um radicalismo político que ele também defendia.

Serviço de Comunicação Social: Quais livros do conjunto da obra de Candido você ressaltaria para a formação das novas gerações na área de humanidades?

Max Luiz Gimenes: É difícil destacar obras de um conjunto tão vasto e rico, como eu já disse que é a produção de Antonio Candido. Não me ocorre agora nenhuma obra sobre a qual se possa dizer que tenha envelhecido ou que cessado de dizer o que tinha para dizer aos olhos de um leitor contemporâneo. Como se sabe, a obra-prima é Formação da literatura brasileira (1959), assim como os ensaios de crítica literária de O discurso e a cidade (1993), “Dialética da malandragem” e “De cortiço a cortiço”. Além deles, eu destacaria Os parceiros do Rio Bonito, que expressa muito claramente a tradução das convicções e do modo de ser de Candido em modo de produção de conhecimento. Trata-se de uma pesquisa qualitativa sobre a realidade do caipira, considerada não de um ponto de vista descritivo, mas como algo que deve ser compreendido para ser transformado, na medida em que exprimia, nas palavras dele, “uma situação da mais revoltante iniquidade”. A reforma agrária que ele vislumbrava como solução desejável da questão diagnosticada não aconteceu, e o problema social continua posto, com seu prognóstico da migração para a cidade e (sub)proletarização do caipira se consolidando, como demonstra reportagem recente sobre Bofete no jornal Folha de S.Paulo. O que hoje se costuma chamar de “ralé estrutural” no debate sobre classes sociais, por exemplo, pelo menos em São Paulo tem o caipira como uma de suas matrizes, além de migrantes de outras regiões do país etc.

Max Luiz Gimenes defendeu a dissertação O “rosa burguês da revolução”: Antonio Candido e o papel do intelectual moderno no Brasil (2018), sob orientação da professora Maria Arminda do Nascimento Arruda, do Departamento de Sociologia.

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