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Verticalização e o futuro de Poços de Caldas

Até o raiar do ano de 1950 Poços de Caldas era, praticamente, uma cidade de construções de poucos andares, praticamente, uma cidade plana que apenas se alterava com a variação geográfica natural do solo. Poucos eram os prédios com mais de três ou quatro andares. Uma cidade horizontal em que era possível ver a serra que emoldura a cidade, seus casarões, parques, igrejas, ruas e avenidas. A construção do edifício Bauxita inaugurado no limiar dos anos de 1950, silenciosamente deu o ponta pé inicial para a verticalização da cidade.

No local ainda existiam as ruinas do histórico cassino Ao Ponto, destruído por um incêndio. O projeto trazia a ideia de modernidade naquele pós-guerra mas iniciava também uma nova disputa: Quem edifica o prédio mais alto?
O pretendente pelo título de maior espigão foi imediato. Logo se deu início ao Cassino Imperial, a poucos metros do primeiro edifício. Seria um prédio maior e mais alto e mais moderno que o Bauxita. A construção vinha acelerada, ocupando toda a área do atual Banco Itaú e o estacionamento enorme, ainda existente. Seria um cassino de luxo, com hotel de primeira linha, amplo estacionamento no subsolo e toda a luxuria que a “Las Vegas “ brasileira merecia.

A proibição dos chamados jogos de azar em 1946 desaceleraram e, finalmente, paralisaram a construção cujas bases deram sustentação para o atual prédio do banco. Porem, a verticalização, embora que de forma lenta, não parou. Vieram outros prédios altos, Emisa, Hercules, Poços de Caldas, edifício Nossa Senhora Aparecida, Ouro Branco e inúmeros outros.
Mesmo assim, podia se contar poucas dezenas de prédios altos na área central até os anos de 1980. Na periferia era impensável se construir prédios com mais de 4 andares. Ainda era uma cidade bucólica e risonha com seu urbanismo diferenciado das demais cidades mineiras, mas tal simplicidade não resistiria o apelo imobiliário e a falsa ideia de segurança e modernidade ocultas em tal tipo de habitação.

Em pouquíssimas décadas a cidade se transforma. Os espigões foram se sucedendo, engolindo casarões e prédios históricos, burlando leis, corrompendo autoridades e não levando em consideração os efeitos colaterais que um edifício traz para sua região. Longe se vai o sonho do saudoso neto do capitão Reinaldo Amarante, Bernardo spindola Mendes, de que Poços de Caldas teria que ter sido tombada como Patrimônio Turístico Mundial. Aos pouco a cidade vai se transformando em uma urbe igual as demais cidades médias ou grandes, com o desaparecimento de casarões e prédios históricos e em seus lugares as “Torres de babel”, algumas até bonitas e funcionais, mas a grande maioria, fria e sem estética, luxo duvidoso, mas que atrai as pessoas com ideia de modernidade.

Um prédio é em outras palavras, uma vila vertical. Para sua normalidade, exige que a rede de esgoto para atender tal vila seja ampliada. Rede a abastecimento de água e energia elétrica sejam refeitas, readequações nas ruas e imediações para suportar um trafego de veículos que se altera naquela região pois são centenas de novos carros a circular. A parte interna de tais mudanças, como instalação de grandes transformadores elétricos, grandes reservatórios de água etc., é paga pelos proprietários mas, toda a despesa externa com redes elétricas, rede de água e esgoto, dentre outras exigências, são diluídas com cada morador da cidade, pois é o município quem banca tais condições funcionais.
Não nos esqueçamos que em tempos de polêmica sobre o valor do IPTU, um apartamento de luxo construído em área nobre recolhe menos que uma casa térrea e de padrão inferior por causa de uma referencia injusta na qual se baseia tal imposto: Fração ideal de terreno. “Um terreno de quatrocentos metros quadrados com um prédio de vários andares se divide o lote pelo numero de apartamentos, assim a parte de terreno para cada apartamento é de uma fração mínima.)

Outras interferências também nefastas ocorrem como acumulo de calor, mudança na corrente de ar produzida por grandes obstáculos verticais, etc. A grane maioria dos prédios não deixam a fração de terreno livre para a recarga de água, pelo contrário, ainda retiram água do subsolo jogando para a rede de esgoto e rios.

Do primeiro edifício aos dias de hoje o fenômeno ocorreu de forma cíclica. Vários prédios construídos em um ano. Poucos em outros anos mas, nunca tantos prédios foram ou estão sendo construídos como nas últimas décadas. Isso ocorre agora não só no centro mas também nos mais diversos e improváveis bairros da cidade.


Basta um olhar em trezentos e sessenta gráus qualquer direção, o que se vê são dezenas e dezenas de novos prédios sendo construídos, chegando a se ver quatro ou cinco torres sendo edificadas em um único quarteirão. Não importa que a legislação atual exija que os prédios tenham garagens amplas, o impacto no trafego externo é inevitável.
Os planos habitacionais dos governos Lula e Dilma, que se enquadraram no “Minha Casa Minha Vida” ou outros tipos de financiamento público, possibilitaram que dezenas de construtoras e pessoas conseguissem financiamentos para construção de edifícios com apartamentos de valor atrativo para classes pobres ou médias. Só que são muitas as ofertas o que chama atenção para o risco de mais oferta que procura, o que possibilitaria muitos apartamentos sendo oferecidos para venda ou aluguel e poucos interessados em tais ofertas, as chamadas bolhas imobiliárias.

Nos assusta ainda a proximidade permitida pela legislação entre um edifício e outro e tal situação nos cobra um outro alerta? Se até então não sentíamos a necessidade premente de equipamento de combate a incêndio em prédios mais altos, como plataforma e escada margirus para o corpo de bombeiros local, agora, entra na ordem do dia a urgente e inadiável necessidade de tais equipamentos pois o número exagerado e crescente de prédios altos não se sustenta com apenas projetos internos de prevenção e combate a incêndios como porta corta fogo e sistemas de hidrantes. É preciso muito mais, e mais rigor da secretaria de planejamento para a provação de tais projetos. Não nos esqueçamos que os moradores de tais edificações também precisam de treinamento no uso de equipamento como hidrantes e extintores e exercícios comportamentais para casos de sinistros em suas vivendas.
Com todos os problemas atuais de uma cidade que cresce, Poços ainda se sustenta graças a visão de grandes administradores do passado que foram visionários com relação a futura cidade. Hoje perguntamos: Quais a grandes obras que marcaram as últimas administrações?

Com as mudanças aceleradas que estamos experimentando com o envelhecimento da população, maior expectativa de vida, mudanças ambientais com o aquecimento global, etc. Poços de Caldas que já foi vanguarda em muitas coisas precisa se repensar e se preparar agora para as próximas décadas.

Se houver preocupação com manutenção de áreas verdes, áreas de recargas e abastecimento, transito, urbanismo, transporte coletivo, acessibilidade,ciclovias e melhor planejamento para a verticalização, poderemos a médio e longo prazo recuperar a posição de oásis do sul de Minas para a realidade futura que se aproxima. É preciso legislação rígida e pulso das autoridades para que a cidade seja reencantada como sugere o antropólogo da USP Stélio Marras. Roberto Tereziano

Clique aqui para ver mais fotos sobre a verticalização em Poços

8 thoughts on “Verticalização e o futuro de Poços de Caldas”

  1. Marcelo F Rabelo says:

    Percebe-se o carinho nas palavras diante do fato sem culpar mas repensar o bem o bom e o simples ato de viver. Estimada e querida Poços de Caldas. Parabéns pelo texto Roberto!

    1. Roberto Tereziano says:

      Grato pelo comentário, amigo. Amamos a nossa cidade e a queremos sempre plena de qualidades. Um grande abraço.

  2. Sandra says:

    Fantástica a sua colaboração Roberto! Infelizmente o futuro das nossas águas está sendo comprometido e no futuro as áreas de recarga já não terão a capacidade de reposição…

  3. Adriano Mussolin says:

    Excelente matéria, Roberto.
    Precisamos de mais textos como o seu para mudar o rumo de nossa cidade.

  4. rodrigo fernandes says:

    Boa tarde, texto bem escrito, sem demonstrações de rancor ou distribuição de culpas. Na verdade a verticalização sem controle é um sintoma (além de vários outros) de nosso emburrecimento coletivo, privilegia-se o lucro, despreza-se o elemento humano, histórico e ambiental. Triste.

  5. Aloisio Elidio Laier says:

    Caro Tdereziano

    Há algum tempo converso com empresários de construção civil, onde noto que a preocupação é ganhar dinheiro em construção de edifícios residenciais, porém não apresentam a menor preocupação com os futuros moradores. Estes moradores tem trabalho e emprego na cidade? Estes edifícios afetam a qualidade de vida da cidade?
    Tratando da influência no clima da cidade fizestes algum comentário, porém o tema apresenta muitos aspectos que ao clima prejudicam. Portanto a comunidade deve tomar parte efetiva deste descalabro, assumindo as rédeas para que males maiores nos atinjam.
    Empresários da construção civil apresentem projetos que aumentem trabalho e emprego aos cidadãos, e não edifícios residenciais que tornam nossa cidade em “Cidade Dormitório”.
    Estou a disposição.

  6. Rubens Correia Neissius says:

    Roberto, parabéns pelo texto. Você trouxe uma reflexão interessante nas cidades verticalizadas que nunca me ocorrera. Interessante a questão sobre a elevação do custo para toda sociedade local em detrimento de alguns empresários vorazes pelo lucram sem medida. Prédios escondem o sol de alguns, tiram ventilação para outros. Temos um Brasil de hoje, isso fica claro olhando para mídia de modo geral, voltado apenas aos interesses particulares. Somos iguais? de forma alguma, o poder público atual acentua as diferenças.

    1. Roberto Tereziano says:

      Nosso carinho à família Neissius, de Petrópolis, que ama e quer o bem de Poços como nós.

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