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NÃO TEMA O CINEMA

Mesmo castigado pela seca fiscal, o GDF/Secretaria da Cultura produziu farta e bela festa de 50 anos do Festival de Brasília do Cinema Brasileiro (15/24 setembro). Temer, o Impopular – bode expiatório e sequela institucional da crise do populismo brasileiro – tal como previsto, foi o nome mais “aclamado” pela cult plateia do histórico cine Brasília, desfalcado das poltronas projetadas por Sérgio Rodrigues.

As telas dos realizadores já metabolizam o impeachment – recente, dada a escala ampla da História – com uma acidez “Fora Temer” compreensível. O combativo setor do áudio visual precisa de apoio oficial. Foi um dos primeiros a ser asperamente atingido pelo desmanche do Estado, no caso a extinção do Ministério da Cultura, revertida aos gritos.

A saída de Dilma constitui um fato histórico relevante na história política contemporânea brasileira e muito significativa para os jovens, frustrados com o desemprego e sensíveis às desigualdades econômicas e sociais ainda gritantes em nosso País.

Essa é uma das explicações para a narrativa que se constrói ao se comparar o impeachment com o golpe militar de 1964. Aquele foi o desafio da “Geração 68” – os “baby boomers” dos anos dourados pós-Guerra, das guerrilhas contra o colonialismo e da contracultura.

O escritor Zuenir Ventura tinha razão: 68 é um ano que não acaba nunca. A militância revolucionária radical sublevou as universidades e liderou as passeatas contra o regime. Após o AI-5 (1969), parte dela precipitou-se no heroico e utópico desfiladeiro suicida da luta armada.

A esquerda dos anos 60/70 foi destroçada pelo regime autoritário. Aquelas bandeiras foram expropriadas por sucessores e sobreviventes isolados que degeneraram no oportunismo fisiológico. Vale dizer, no lulopetismo: a forma populista em que se degradou o “partido guarda chuva” que nos anos 80 reaglutinou o que restara de militantes das organizações radicais a núcleos do movimento eclesial, além de socialistas de butique e uma elite sindical hegemônica e não-socialista, ávida por conquistas materiais.

O trágico desse roteiro político é a orfandade em que ficam hoje movimentos sociais e militantes isentos tanto da gestão canhestra da máquina pública quanto do envolvimento nos numerosos propinodutos montados ao longo de 13 anos de aparelhamento sectário do setor estatal. Essa convulsão, evidentemente, reflete-se de forma aguda no cinema nacional, historicamente bem mais politizado que os demais setores da cultura tupiniquim.

AINDA UM “COPIÃO”

O discurso na linha do “golpe parlamentar” sidera o roteiro do filme “Era uma vez Brasília”. Aguardado com muita expectativa, frustrou a torcida candanga ao embaralhar metáforas de enfrentamento armado da crise política com ficção científica trash. Resultou em um samba de afro-descendente doido, diria o velho Estanislaw Ponte Preta já na linguagem politicamente censurada das “viúvas” do populismo.

Entretanto, o Festival também exibiu obras de bom nível.

Retoma-se a questão da negritude em mergulho na nossa violenta história colonial (o irretocável “Vazante”) e nas relações sociais solidárias à Jorge Amado (“Café com Canela”). Vencedor não-unânime, o filme “Arábia” recoloca operário e fábrica no centro da crise social, permitindo-nos lembrar das greves de Contagem e Osasco em 68, antes dos sindicalistas geiselistas que emergiram com a abertura e a anistia outorgadas pelo regime militar.

O xamanismo africano é resgatado como arma-símbolo no inesgotável arquétipo casa grande X senzala, que se reproduz nos conflitos agrários atuais pela posse de terra face à um agrobiz senhorial (“O nó do diabo”). Já as armas surgem claramente como reação à exclusão genocida dos indígenas no pungente “Não devore meu coração” ou na radical bandeira de “Poder Popular” erguida por cineastas da sublevada Rocinha.

Que candidatos ou que novos partidos vocalizarão a crise social brasileira? 0 PT e a seita populista derretem. Não devem desaparecer, mas deixam vago o andor da procissão esquerdista. Lula tem devotos e perfil para ser embalsamado como nossa Evita Peron, como na Argentina.

Atenção: furacão que tem atormentado os EUA e a Europa, a ultra direita ressurgiu do lixo da História, como hidra de sete cabeças. Quem irá enfrentá-la nas urnas? Que cineasta vai encará-la sem messianismo, populismo, xamanismo? O populismo janguista e sua estética glauberiana são lições do passado que podem não expressar a difícil conjuntura.

José Roberto da Silva – jornalista

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