O Brasil vai legalizar os jogos de azar? por Nirlando Beirão

O Brasil prepara-se para tirar da clandestinidade todos eles – até a velha e perseguida loteria zoológico

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Trump teve um cassino em Las Vegas e seis em Atlantic City

A depender do Senado, a retomada da economia vai ser buscada num lance de sorte – ou de azar. Uma Comissão Especial de “Desenvolvimento Nacional” apressa-se para liberar sem restrições a jogatina no País, a partir de um projeto a princípio assinado pelo senador Ciro Nogueira (PP-PI), decisão que imagina encher os cofres federais com 29 bilhões de reais em tributos, nos próximos três anos, e promover uma avalanche de empregos, na contramão do que o aperto fiscal do governo Temer incentiva. É só uma aposta, por ora, mas o Senado bota fé.

Cassinos, bingos, apostas eletrônicas, os sweepstakes das corridas de cavalo e até o folclórico jogo do bicho – que passou a se beneficiar de uma clandestinidade tolerada desde o paradoxal dia em que as apostas legais foram cassadas no Brasil – ganharão a luz do dia sem ser incomodados pelas autoridades.

Um desafio para a inapetente iniciativa privada, mais inclinada a jogar nas roletas das bolsas de valores. O governo continuará administrando, via Caixa Econômica Federal, apenas as loterias que já administra, da Mega Sena à Esportiva.

Um elenco de penduricalhos está sendo preparado à guisa de regulamentação “para dar transparência” à lei e evitar a “lavagem de dinheiro”, segundo o relator Fernando Bezerra Coelho (PSB-Pernambuco). Mas a verdade é que nada será obstáculo para que as roletas voltem a girar e as máquinas caça-níqueis, a tilintar.

O projeto dormitava no Senado desde 2014 e o governo Dilma pareceu interessar-se pelo assunto. O controvertido ministro do Turismo, Henrique Eduardo Alves (PMDB do Rio Grande do Norte), chegou a se entrevistar com experts de Las Vegas (EUA) e Punta del Este (Uruguai).

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O cassino de San Remo e o de Montecarlo: o vício tem sua elegância

Mas agora, sob os holofotes de certa “Agenda Brasil”, de Renan Calheiros, presidente do Senado, os jogos de azar tornaram-se item número 1 de uma lista indigente de ideias de um governo que joga hoje o tudo ou nada em busca de uma legitimidade impossível. Se depender de Michel Temer e seus asseclas, vai dar galo na cabeça.

A chegada à Presidência, nos Estados Unidos, de Donald Trump, um apostador incurável, mas reconhecido por apostar sobretudo com as fichas alheias, talvez contamine os seus vassalos do Sul e acelere a tramitação da lei, que agora vai a plenário no Senado.

Será interessante observar o comportamento dos senadores José Serra e Aloysio Nunes Ferreira, ambos do PSDB de São Paulo. Quando o governo Dilma falou em liberar o jogo, os dois se enfureceram. Nunes chegou a dizer que aquilo iria “destruir famílias”. Como Serra faz parte do governo e Nunes o apoia, é bem provável que já não estejam tão interessados assim nos efeitos deletérios do carteado e do bacará nos lares brasilinos.

A liberação dificilmente sairá a tempo de se comemorarem, em 2016, os 70 anos de estúpida canetada de um presidente idiota que condenou à morte os cassinos em todo o território nacional. Reza a lenda que o general Eurico Gaspar Dutra atendia às preces de sua mulher, Carmela Leite Dutra, de sugestivo apelido Dona Santinha.

Carola de sacristia, sempre agarrada a um terço e a uma maledicência, Dona Santinha obteve do marido militar, como na história do mago da lanterna, três desejos. O fim do jogo encabeçava o rol. A construção de uma capela no Palácio da Guanabara era o segundo desejo. O último era a cassação do Partido Comunista – daquele sinistro bando de ateus e materialistas. O general Dutra entregou direitinho as encomendas.

O banimento dos cassinos foi decretado a 30 de abril de 1946. Da noite para o dia, sumiam do mapa os mais icônicos redutos do que o Brasil pré-televisão entendia por entretenimento, à moda da Broadway.

 

b3235e68-5f58-42c3-8535-1c1f04c2b750Milhares e milhares de empregos foram torrados na fogueira da intolerância beata de Dona Santinha, que Deus a tenha e guarde, e magníficos prédios – que conferiam uma atmosfera de elegância habillée a balneários, a estâncias hidrominerais, a cidades de fronteira, a polos turísticos – capitularam ao destino de um vazio espectral, a uma lenta e irremediável agonia.

Foi numa noite no Cassino da Urca, erigido em 1920 com o nome de “Hotel Balneário”, que aquele Tico-Tico no Fubá da crooner Carmen Miranda enfeitiçou de tal forma o empresário americano Lee Schubert, que ele decidiu catapultá-la para uma carreira estrepitosa em Hollywood (o ator Tyrone Power recomendara Schubert a conferir ao vivo, no Cassino da Urca, a bombshell luso-brasileira).

Joaquim Rolla, que labutou como tropeiro antes de trocar o interior de Minas pelo Rio trepidante dos anos 30, presidiu, sempre com a melhor das fatiotas, a transformação do que poderia ser uma mera casa de jogo num eldorado luxuoso da diversão.

Cerca de 3 mil pessoas transitaram, cada noite, em cinco ambientes – dois dos quais, apenas dois, eram reservados aos que queriam arriscar o seu dinheiro. Uma monumental pista de dança, um palco sempre frequentado pelos animadas big bands e por cantores de prestígio e um restaurante de requinte atraíam para o Cassino da Urca o café society, a grã-finagem do Jockey Club, os políticos exibicionistas e a fina flor da boemia artística. O jogo era quase um detalhe.

O cineasta Orson Welles, que desembarcou no Rio, em 1942, em missão oficial do governo americano, interessado em seduzir o Brasil como aliado na Segunda Guerra Mundial, era visto praticamente todas as noites na Urca, com sorriso estampado nos lábios e muito scotch na cabeça. Cumpria o que ele entendia por missão de boa vontade. Mas na roleta nunca se aventurou, ao que se saiba.

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O Cassino da Urca teve Carmen Miranda, o melhor do café-society e habiutés como Orson Welles (Foto: Hart Preston/Getty Images)

O Cassino da Urca, antes de falecer, foi submetido à concorrência do Cassino Atlântico, em Copacabana, que até croupiers estrangeiros recrutou. No entanto, faltou-lhe a mística que fez do reduto de Joaquim Rolla – que também assumiria o Hotel Quitandinha de Petrópolis, com sua imponência alpina – um cassino similar aos mais clássicos e lendários de todo o mundo, tais como o de Montecarlo, pérola do Principado, bem ali no promontório de onde se descortina a Baía de Mônaco, e o de San Remo, na costa ligure, que, desde sua fundação, em 1905, parece estar dia e noite à espera das câmeras de um Fellini para documentar os vestidos de musselina e as summer jackets que edulcoram as noitadas de uma infatigável dolce vita.

O segredo dos clássicos cassinos dos balneários europeus é que, muito diferente do bafafá capiau e tosco de Las Vegas, eles conseguem rimar, na vertigem do vício, aventura com compostura, sempre finos e chiques os salões, mesmo quando um prejuízo acachapante ou uma vitória milionária induz a um ou outro entrevero.

Eventualmente causado por um habitué enfatiotado e amante de um Dry Martini, cujas aventuras ficcionais combinam às mil maravilhas com ambientes de jogo em que o inimigo espreita para o golpe fatal. James Bond e cassino formam um par inseparável.

A mesa de jogo pode ser, aliás, um retrato do mundo, se é para se levar a sério o ensinamento que este repórter recebeu, um dia, aliás, uma noite, de um crupiê de Montecarlo, um italiano de prenome Mario. Não há – havia, ele se aposentou – especialista em economia internacional tão agudo e sensível quanto esse Mario. Ali, da mesa de roleta, descortinava o mundo do dinheiro.

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O Taj Mahal encerrou em outubro seu sonho megalomaníaco (Foto: Sean Pavone/iStockphoto)

Avisava: “A Rússia está bombando. Mas deve ser dinheiro fácil, porque os russos estão dispostos a perdê-lo com igual facilidade”. Ou ainda: ‘“É bom prestar atenção na China”. Isso quando a China só começava a se reerguer da letargia do comunismo.

Deve-se a ele a mais perfeita definição de Mercosul, colhida no vaivém dos aficionados das fichas. Dá para chamá-la de “teoria da balança”. Segundo ele, “quando o Brasil vai bem, a Argentina vai mal; quando a Argentina vai bem, o Brasil vai mal”. Faz algum sentido.

O país por excelência da jogatina (mapa) tem muito a ver com o ethos do presidente que acaba de eleger. Os mais estrepitosos fracassos da carreira empresarial de Donald Trump aconteceram, aliás, nas suas incursões por Las Vegas, onde bateu de frente com os profissionais do ofício, mafiosos ou nem tanto (seu suntuoso hotel-cassino na Strip foi passado adiante depois de oito anos), e por Atlantic City, onde, um mês antes da eleição, o Taj Mahal, derradeiro exemplar da estirpe Trump de cassinos, fechou as portas.

Jogo do bicho

O apontador do bicho no Rio de Janeiro

“É a oitava maravilha do mundo”, vangloriou-se ele na abertura, em 1990, com investimento de 1 bilhão de dólares e Michael Jackson e a top Elle Macpherson a tiracolo. Foram 26 anos de conflitos trabalhistas e de rotunda megalomania.

A abertura pró-jogo no Brasil, apesar da ansiedade de um Senado aliado ao trapaceiro Michel Temer, não pressupõe a alegria de um jackpot. A experiência dos bingos, encerrada subitamente em 2004 com a chancela do governo Lula, deixou cicatrizes e dúvidas – além de elefantes brancos ainda assombrando, como fantasmas de uma ilusão efêmera, imponentes endereços das grandes metrópoles.

Lula tentava estancar o escândalo surgido quando um assessor de José Dirceu, chefe da Casa Civil, foi flagrado aceitando propina da parte do bicheiro Carlinhos Cachoeira. Os corretores do bicho tinham dominado os bingos. Fora isso, o espírito de Dona Santinha voltou então à cena para pressionar as bancadas do dízimo e do terço no sentido de salvaguardar a moral das famílias cristãs.

A chiadeira deve recomeçar, quando o projeto de lei descer do Senado para a Câmara. Trata-se de uma questão de competição e sobrevivência. Afinal, religião também é um jogo de azar.

*Reportagem publicada originalmente na edição 928 de CartaCapital, com o título “Façam suas apostas”

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