Exposição “ O Pano Guardou Memória”: Museu Histórico recebe mostra sobre histórias de mulheres

Poços de Caldas (MG) – O que um pano pode guardar? Marcas, manchas, dobras, desgastes e gestos repetidos ao longo do tempo. Em O Pano Guardou Memória, o tecido deixa de ser apenas objeto cotidiano para se transformar em arquivo vivo de histórias que, muitas vezes, ficaram fora dos registros oficiais.
A exposição da artista Bjuá Masofie que vai ocupar o Museu Histórico e Geográfico de Poços de Caldas, a partir de 23 de agosto de 2026, propõe ao público um percurso imersivo construído com aproximadamente 50 metros de algodão cru, estruturas móveis e iluminação de baixa intensidade. O trabalho é oriundo do Edital Secult nº 11/2025 – Fomento para as Artes Plásticas e Visuais.
A instalação parte de uma reflexão sobre as mulheres que sustentaram casas, famílias e estruturas sociais por meio de um trabalho historicamente invisibilizado. Os tecidos são tingidos, manchados, pintados, amassados, torcidos, costurados e drapeados manualmente, incorporando à própria matéria da obra gestos associados ao trabalho doméstico, como torcer, esfregar e estender.
O pano torna-se corpo, obstáculo e testemunha
É a partir dessa perspectiva que o visitante atravessa a exposição. Em vez de observar as obras apenas à distância, o público percorre tecidos, frestas, dobras e vazios. A proposta é que a experiência seja íntima e corporal: o visitante não vê tudo de uma vez e sente o tecido próximo ao próprio corpo.
Memória que também é política
O trabalho tem como um de seus eixos conceituais a trajetória de Laudelina de Campos Melo, referência histórica na organização e luta das trabalhadoras domésticas brasileiras.
Sua presença amplia a discussão proposta pela exposição: os panos representados na obra não são apenas objetos relacionados à rotina doméstica. São também testemunhos de vidas atravessadas pelo trabalho, pela resistência e pela permanência.
Além desta referência, a obra vincula o afeto em memória afetiva à avó da artista, dona Luzia, que deixou em sua família o legado e importância feminina na construção de mulheres neste ambiente.
Ao ocupar o Museu Histórico e Geográfico, O Pano Guardou Memória também propõe uma reflexão sobre o próprio conceito de patrimônio. A exposição questiona quais histórias são tradicionalmente preservadas e reivindica espaço para memórias que ajudaram a sustentar a vida brasileira, embora tenham sido historicamente invisibilizadas.
Um percurso construído com tecido, sombra e silêncio
A instalação será composta por quatro a seis estruturas têxteis de médio e grande porte, todas sustentadas por estruturas móveis e autoportantes, sem intervenção direta nas paredes ou no teto do museu. Ao longo do percurso, a iluminação baixa cria sombras e revela diferentes profundidades, texturas e marcas dos tecidos.
A escolha dos materiais reforça o conceito da exposição. O algodão cru recebe tingimentos parciais e manchas antes de ser manipulado manualmente. O resultado preserva visualmente as ideias de desgaste, repetição e permanência que atravessam toda a obra.
Mais do que apresentar objetos, O Pano Guardou Memória convida o público a atravessar uma memória materializada. Compondo a experiência, a abertura conta com trilha sonora do artista Pedro Cezar que, através do vinil, leva o público a emergir em cada detalhe.
Serviço
O Pano Guardou Memória
Local: Museu Histórico e Geográfico de Poços de Caldas
Abertura: 23 de agosto de 2026, das 11h30 às 12h30
Período da exposição: 23 de agosto a 11 de setembro
Endereço: Villa Junqueira (Rua Padre Henry Moton, s/n – Centro)
Entrada: gratuita
Ficha técnica
Expografia e Artes Visuais: Bjuá Masofie
Produção: Marcelo Leme
Imprensa: Mariane David
Artes gráficas: Aline Dias
Trilha sonora: Pedro Cezar
Fotografia: João Ferreira





