Literatura

VERANEIO EM POÇOS DE CALDAS

Leia a deliciosa cronica encontrada no livro “Brasil, Terra & Alma

Reviva um pouco do que era a nossa cidade encantamento.

………………………………………………………………………………………………………..

ml-0962-carto-postal-antigo-pocos-de-caldas-mg-1959-21814-MLB20218201161_122014-OAs Caldas da Rainha, de Portugal, aqui em Minas, viraram por similitude das águas, Poços de Caldas. A antiga freguesia de Nossa Senhora da Saúde das águas de Caldas, a 1.186 metros de altitude (acima do nível do mar) no alto da serra de São Domingos, rodeada de flores e verduras, entre montanhas e vales. Hoje, a 480 quilômetros asfaltados da Guanabara.

Saia pela Dutra, quando chegar pelas alturas do quilômetro 223, quebre à mão direita, como diria meus avós mineiros, e siga a via Piquete, suba a serra da Mantiqueira, aproveite os panoramas. Passe por Bicas do Meio, encontre duas barragens, se quiser almoce em Itajubá. Logo a diante, não há como não comer e levar o doce de leite de Piranguinho, pé de moleque com amendoim inteiro ou moído. É comer e pedir mais. Pense nas calorias depois, e trate de deixa-las nas banheiras sulfurosas, nas duchas ou nas mãos hábeis dos massagistas de Poços.

No meio da tarde, se saiu cedinho (são 7 horas e meia, 8 horas, de estrada, sem correr), você estará lá.

A minha estaçãozinha de veraneio de há doze anos atrás cresceu que foi uma barbaridade, nesse jeito sem beleza em que crescem, geralmente nossas antigas cidadezinhas: Arranha-céus desajeitados entre as velhas pracinhas simples e saborosas, os casarões serenos. Mas não há outro jeito. Restam o céu, o ar puríssimo, o frio seco estimulante, as  termas.

Procuro marcos, o velho Pálace, as fontes luminosas que não se acendem mais, os carrinhos puxados a  bode, que se multiplicaram, as charretes e os cavalos de aluguel também.

Os cinemas são os mesmos, velhos e cansados.

Obedeceram ao mesmo “crescei e multiplicai-vos” as loja s de doces e vinhos da região (são fabulosos!) os objetos de folclore, maquinas de moer café e pimenta. Ferros de engomar, desrespeitados na pureza de suas formar simples com purpurina de última hora, algumas florezinhas coloridas de mau jeito.

A gente, essa é doce e cordial, ainda incontaminada da pressa e do egoísmo, da neurastenia das grandes cidades. Pede-se um endereço e somos levados até a porta da casa do médico, com doçura e bem-querer gratuitos, o médico propriamente dito espira saúde, bondade, alegria de viver sob os cabelos brancos, na cara rosada, nas declarações de amor à vida, no corujíssimo comovente com que mostra o retrato do belo rapagão que é o filho.

 

Faz duas horas que cheguei e já posso constatar que cheguei e já posso constatar que desembarquei noutro planeta, quando me acompanha à porta, me mostra a grande lua subindo serena no céu prateado e pergunta como é que pode haver gente ingrata não gostando deste mundo, em que se pode ver um céu daqueles, tratar os pulmões com aquele ar que os próprios anjos do céu deveriam agradecer antes de respirar.

 

Mendigos pela rua, não há, decerto afastados por aqueles cartazes: “Não dê esmolas.” “Menino pidão, adulto ladrão.” “Socorra o seu semelhante visitando o S.O.S.” Não correrem apenas com os mendigos, cuidam deles.

O chofer, (“Seu” Morais) que nos leva para uma volta, a descobrir e redescobrir os atrativos locais é um cicerone de fala mansa, sabe onde encontrar o melhor courinho de porco do mercado, dá os seus palpites sobre vinhos, leva as duas fábricas de cristais (mas essa é outra conversa).

Aquele velho casarão em frente ao deposito de vinhos é dos Otoni (tem 70 metros de fundo, com pé de café e rosa trepadeira). Bonito é o novo bairro-jardim dos ricos, não deixe de levar compota de manga e figo em caldas. Não deixo.

 

No começo da noite, há um carro enguiçado. “Tem uma chave de roda?” Não havia de ter? Entrega a chave e segue caminho ante o nosso susto carioca. “Deixou a chave? É seu conhecido?” – “Uai, não, dona. Mas não viu dizer que deixa amanhã no posto do Barbudo?

_” Mas deixa mesmo?” _ “Deixa, uai…”

Elsie Lessa

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Este site está protegido. Para compartilhar esse conteúdo, por favor utilize as ferramentas de compartilhamento da página.

error: Este site está protegido.