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Os primeiros “Soldados do Fogo” de Poços de Caldas

Primeiros bombeiros da Companhia do Corpo de Bombeiros de Poços de Caldas-MG
A trajetória do Corpo de Bombeiros de Poços de Caldas começa em julho de 1975 com a inauguração da 1ª Companhia na cidade – foto acervo Veteranos Corpo de Bombeiros

Poços de Caldas (MG) – A 1ª Companhia Independente de Corpo de Bombeiros de Poços de Caldas (MG) completou meio século de criação em julho do ano passado. Para celebrar a data, até esta sexta-feira, dia 30, a trajetória dos primeiros heróis, dos primeiros “Soldados do Fogo” de Poços de Caldas é resgatada em uma exposição sobre o cinquentenário do Corpo de Bombeiros na Câmara Municipal.


A exposição foi construída como uma linha do tempo, dividida em cinco décadas, reunindo fotografias, matérias jornalísticas e textos explicativos que registram fatos marcantes de cada período.

O material permite acompanhar a evolução da atuação dos bombeiros em Poços de Caldas, destacando o crescimento da corporação, a ampliação de sua estrutura e a diversificação das ocorrências atendidas ao longo dos anos.

Além do acervo histórico, a exposição conta com um documentário que reúne depoimentos de antigos e atuais comandantes, pesquisadores e pessoas atendidas pela corporação.


Os relatos ajudam a contextualizar a importância do Corpo de Bombeiros na cidade, a partir de diferentes perspectivas, e reforçam o vínculo da instituição com a comunidade local.

Entre os depoimentos, dois são dos principais personagens que ajudaram a construir a história do Corpo de Bombeiros na cidade: o soldado Manoel Dias Souza e o 1º comandante, tenente coronel,  José Benedito.

Primeiros Soldados do Fogo

A história do Corpo de Bombeiros começou com a vinda de 7 bombeiros militares para atuar na então 1ª Companhia de Corpo de Bombeiros de Poços de Caldas. O grupo comandado pelo recém formado do curso de oficiais, tenente Benedito, assumiu um grande desafio ao deixar Belo Horizonte (MG) e atuar nas mais diversas e complexas ocorrências, em que os bombeiros eram necessários numa cidade na divisa com o Estado de São Paulo, a 447 km da capital mineira.

Dos 7 primeiros “Soldados do Fogo” apenas dois permaneceram em Poços de Caldas, mesmo indo para a reserva, a aposentadoria dos militares.

O soldado Manoel Dias Souza entrou para os bombeiros, depois de mudar da Bahia (BA) para Belo Horizonte (MG), com 17 anos. Chegou a trabalhar como pedreiro, até que se alistou no Exército e quando deu baixa, decidiu que seria bombeiro, entrando para a corporação como recruta e passando por todas etapas de formação.

Transferido para Poços de Caldas, o soldado Manoel, foi o primeiro mergulhador dos bombeiros e responsável pelos resgates de vítimas de afogamentos, principalmente no Véu das Noivas, bem como nas cidades do Sul de Minas, onde não tinha este tipo de resgate.

O soldado Manoel Dias foi o primeiro mergulhador dos bombeiros de Poços de Caldas - foto acervo Veteranos do Corpo de Bombeiros
Solado Manoel Dias, o primeiro mergulhador dos bombeiros de Poços de Caldas-MG – foto acervo Veteranos dos Bombeiros

O desafio era grande, pois os bombeiros não tinham tantos equipamentos sofisticados e recursos como hoje. “Quando vimos para a inauguração, tínhamos poucos recursos e equipamentos, uma vez que atendíamos ocorrências de resgate, acidentes e afogamentos, principalmente no Véu das Noivas e nas cidades da região. Naquela época, o frio aqui era intenso, e muitas vezes tinha que entrar na água com um calção e o cilindro de oxigênio as costas, sem nenhum isolamento térmico. Nossa rotina era de 24 horas de plantão. A gente morava no quartel para poder dar assistência na ocorrência. Às vezes, como eu era o único resgate aquático tinha que sair daqui para atender afogamentos em Pouso Alegre, Itajubá, Alfenas e outras localidades que não tinha o Corpo de Bombeiros,” se recorda o soldado Manoel.

“O Corpo de Bombeiros mudou a minha vida. A gente via o valor, o prestigio de um soldado do Corpo de Bombeiros, outro olhar na sociedade. Eu me aposentei em 1995, e até hoje aos 79 anos de idade, eu carrego o lema: Bombeiro sempre Bombeiro. Até hoje me sinto um bombeiro, se acontecer alguma coisa do meu lado eu vou agir, mesmo com 30 anos de aposentado. Tenho instinto. Estou pronto para agir. Estou preparado para fazer o melhor possível” finaliza o soldado Manoel.

O comandante José Benedito se recorda exatamente como foi a inauguração da unidade em Poços de Caldas. A solenidade foi marcada com a presença do governador de Minas Gerais, Aureliano Chaves e do comandante geral do Corpo de Bombeiros, coronel Carlos Augusto, além de um pelotão de 40 bombeiros, que fizeram uma demonstração para os moradores sobre a atuação dos bombeiros.

Depois da inauguração ficaram apenas os 7 bombeiros com um desafio enorme pela frente: atender as ocorrências em Poços de Caldas e nas cidades vizinhas. “Eu tinha acabado de concluir o curso de 3 anos de formação de Oficiais no Rio de Janeiro, quando meu comandante me chamou e perguntou se eu aceitava o desafio de assumir o comando da unidade aqui em Poços de Caldas. Aceitei o desafio e a missão e viemos eu e mais 6 bombeiros. Não existia equipamentos como hoje e tínhamos que encontrar uma solução para fazer o melhor possível no combate aos incêndios florestais, onde na maioria das vezes usávamos ramos e folhas de árvores como abafadores para apagar os focos de incêndio. Depois improvisamos mangueiras velhas como abafadores. Se em 1975, eu falasse que um dia teríamos um drone que iria apagar incêndios florestais sem risco da integridade física dos bombeiros, eles me internariam, pois era algo que não se podia imaginar, uma vez que só tínhamos telefone fixo e rádio comunicador”, se recorda o comandante  José Benedito.

A saudade da família era outra dificuldade enfrentada pelos bombeiros, pois a esposa e os filhos ficaram em Belo Horizonte e por conta do efetivo reduzido, o comandante teve de ficar de plantão no quartel por muitas vezes para que os bombeiros pudessem visitar seus familiares na capital mineira.

O começo da corporação em Poços de Caldas foi marcado por ocorrências que ficaram na história, como o incêndio no hotel Lancaster, soterramento de um topógrafo que caiu em uma mina subterrânea na antiga Nuclebrás. “90% das ocorrências atendidas por nós foram com grande dificuldade e risco devido à complexidade de cada uma. No grupo tínhamos uma capacidade de assimilar e que tínhamos que resolver a questão e manter viva a importância dos bombeiros, passávamos por cima de toda dificuldade e construímos um alicerce resistente para tonar os bombeiros o que é hoje. Cada um deu o seu melhor na sua função. Eu não venci nada sozinho, pois dependia do meu grupo e cumprimos a nossa missão,” se emociona o comandante.

 

História

Em Poços de Caldas, a história do Corpo de Bombeiros Militar de Minas Gerais tem início oficial em 5 de julho de 1975. Desde então, a corporação acompanhou o crescimento da cidade e a complexidade das demandas, ampliando sua atuação para além do combate a incêndios e do atendimento a acidentes, com ações educativas, projetos de prevenção e iniciativas voltadas à formação de crianças e jovens.

Comandante Benedito, soldado Manoel Dias e a assessora parlamentar Évelin Carvalho
O comandante José Benedito e o soldado Manoel Dias relembram a história do Corpo de Bombeiros de Poços de Caldas para a assessora parlamentar Évelin Carvalho durante as gravações do documentário – foto Roni Bispo

Em 2015, a unidade de Poços de Caldas foi elevada oficialmente à categoria de Primeira Companhia Independente, ampliando sua autonomia administrativa e operacional.

Atualmente, o 6º Comando Operacional de Bombeiros (6º COB) coordena seis pelotões e dois postos avançados, com cobertura de 60 municípios das regiões Sul e Sudoeste de Minas Gerais.

De acordo com o comandante do 6º COB, coronel Edirlei Viana da Silva, toda esta estrutura montada em Poços de Caldas começou há 50 anos com a chegada dos 7 primeiros bombeiros, que com determinação e bravura construíram uma trajetória que vai perdurar por muito e muitos anos. “Os pioneiros de ontem, hoje são os veteranos que inspiram aqueles que vieram depois e que continuarão a chegar com o sentimento e a missão de salvar. A exposição dos 50 anos do Corpo de Bombeiros, o documentário de toda esta trajetória são o reconhecimento e gratidão a todos os nossos veteranos. Eu sentia que tinha este débito com os nossos veteranos, ainda não quitei totalmente, mas começamos resgatando toda esta história e o legado deixado por eles. Eles eram melhores que nós, e isso temos que reconhecer, se a gente alcançou este patamar foi graças a eles. O que estes senhores fizeram, encarando incêndios de grandes proporções, mergulho em águas em condições insalubres para salvar vidas, não tem preço. Nossos veteranos são diferenciados e tem todo nosso reconhecimento e gratidão. Graças aos veteranos, que cumpriram sua missão aqui, o Corpo de Bombeiros de Minas Gerais caminha hoje como uma instituição com o maior respeito e credibilidade por parte da população,” enfatiza o coronel Viana.

Serviço

A exposição dos 50 anos do Corpo de Bombeiros de Poços de Calas permanece aberta à visitação das 9h às 18h até sexta-feira sede do Legislativo.

Após a exposição o documentário na íntegra sobre o cinquentenário do Corpo de Bombeiros será disponibilizado no canal da Câmara Municipal no Youtube.

Um comentário sobre “Os primeiros “Soldados do Fogo” de Poços de Caldas

  • Parabéns pela excelente matéria Roni Bispo. Você é um ótimo profissional. Obrigado pela matéria e valorização de nossos bravos veteranos.

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