Circo “invade” escolas públicas do Sul de Minas e transforma salas em picadeiro itinerante

Congonhal (MG) – Em um cenário de desigualdade no acesso à cultura, em que grande parte das programações artísticas ainda se concentra nos grandes centros urbanos, um projeto aposta no caminho inverso: levar o circo até onde ele quase nunca chega, o interior profundo e, mais especificamente, a escola pública.
É com essa proposta que a turnê “Semana do Circo” percorre cidades do Sul de Minas Gerais em abril, promovendo apresentações gratuitas do espetáculo “O Show de Mostacho e Peperina”, da Cia. Circônicos, dentro de escolas estaduais.
A circulação acontece em municípios com menos de 50 mil habitantes. Esta semana o projeto é realizado na Escola Estadual Mendes de Oliveira em Congonhal.
A Escola Estadual Afonso Romão de Siqueira,, em Botelhos e a Escola Estadual Dr. Alcides Mosconi já receberam o projeto.
Mais do que uma apresentação artística, o projeto propõe uma mudança de perspectiva: transformar o ambiente escolar, muitas vezes marcado por rigidez e repetição, em um espaço de criação, escuta e experiência sensível.
O circo como linguagem pedagógica
Ao levar o circo para dentro da escola, a “Semana do Circo” ativa dimensões fundamentais do processo educativo que nem sempre cabem no currículo tradicional: o corpo, o improviso, o erro, o riso e a coletividade.
A linguagem circense, historicamente construída na rua e na relação direta com o público, rompe a lógica da passividade. Aqui, estudantes não apenas assistem – eles reagem, participam, interferem. O espetáculo acontece com eles, e não apenas diante deles.
Essa interação direta contribui para o desenvolvimento da atenção, da escuta, da confiança e da imaginação. Ao mesmo tempo, legitima outras formas de conhecimento e expressão que passam pelo corpo e pela experiência, e não apenas pela palavra escrita.
Um espetáculo que nasce da rua
“O Show de Mostacho e Peperina” é resultado de um processo criativo construído em espaços públicos, a partir do contato direto com diferentes públicos. Cada número, ritmo e escolha cênica foi testado e refinado diante de plateias reais, muitas vezes distraídas, em movimento, exigindo dos artistas uma escuta ativa e uma capacidade constante de adaptação.
Em cena, dois artistas argentinos conduzem uma narrativa cômica e poética: Mostacho, um malabarista entusiasmado que acredita comandar o melhor circo do mundo, e Peperina, uma acrobata que, com humor e espontaneidade, revela as falhas do espetáculo. O jogo entre expectativa e improviso constrói situações inesperadas que envolvem diretamente o público.
A montagem reúne técnicas como malabarismo, acrobacia, mágica com bola de contato e bambolê, criando uma linguagem acessível para todas as idades, com forte apelo junto ao público infantil.
Descentralizar é também educar
Ao escolher escolas públicas como espaço de apresentação, o projeto reforça o papel da cultura como direito básico e componente essencial da formação cidadã. Em regiões onde o acesso a equipamentos culturais é limitado, a chegada de um espetáculo ao vivo pode representar o primeiro contato de muitos estudantes com as artes.
A iniciativa dialoga diretamente com políticas de descentralização cultural, ao priorizar territórios historicamente menos atendidos e ao reconhecer o ambiente escolar como espaço estratégico para a formação de público.
Além disso, o formato leve e itinerante do espetáculo permite que qualquer espaço, uma quadra, um pátio, um corredor, se transforme em picadeiro. Essa adaptabilidade não é apenas uma solução técnica, mas uma afirmação estética: o circo acontece onde há gente disposta a olhar, rir e participar.
Arte acessível e inclusiva
A “Semana do Circo” também incorpora medidas de acessibilidade, como a presença de intérprete de Libras e a escolha de espaços com condições de acesso físico, ampliando o alcance das apresentações e garantindo que mais pessoas possam vivenciar a experiência.
Uma trajetória de estrada e encontro
Fundada por artistas argentinos com trajetória pela América Latina, a Cia. Circônicos carrega em sua prática a tradição do circo de rua: uma arte construída no encontro, na improvisação e na troca com o público.
Desde sua criação, a companhia já levou espetáculos e ações formativas a milhares de pessoas, consolidando uma atuação voltada à democratização do acesso à cultura e à valorização das linguagens populares.
Com a “Semana do Circo”, esse percurso ganha novos contornos ao se infiltrar no cotidiano escolar, um gesto simples, mas potente: abrir espaço para que o inesperado aconteça.
Porque, quando o circo entra na escola, não é apenas o espaço que se transforma. É também a forma de aprender, de se relacionar e de imaginar o mundo.
A equipe do projeto reúne os artistas Daiana Aranda e Ibrian Azzi, com técnico de som Gui Guerreiro, acessibilidade em Libras com Nat Grechi e assessoria de imprensa com Jéssica Balbino; a iniciativa é realizada com recursos do Fundo Estadual de Cultura de Minas Gerais, com realização da Cia Circônicos, Economia Criativa, Governo de Minas Gerais e Secretaria de Estado de Cultura e Turismo de Minas Gerais
SERVIÇO
Semana do Circo – Turnê Sul de Minas
27 a 30/04 – Congonhal | Escola Estadual Mendes de Oliveira
Entrada: gratuita
Classificação: livre





