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A LENDA DAS TRÊS PORTEIRAS


E a lenda do vale milagroso correu célere… Entre ipês floridos e aplumados pinheiros, nas margens de pedregosos ribeirões, no fundo do vale, havia uma água que nascia quente, que endireitava estropiados, limpava os tinhosos, fechava chagas e curava mazelas; e dava saúde; e dando saúde dava o direito de lutar, de viver, de ser feliz.
Era só mergulhar os corpos nos poços nevoentos e quentes, e sentir a água untuosa, balsâmica, milagrosa.
E vieram os primeiros banhistas; em morosos carros de bois; desprezando intempéries; transportando a vau rios e corredeiras; galgando íngremes serras; enfrentando perigosos abismos; com cobertores nas costas; paçoca e rapadura nos bornais, fé e esperança nos corações.
E a fama do vale milagroso correu célere… irradiou-se para todos os rincões, e para todos os lares, onde houvesse um mal se cura ou uma esperança perdida.
E surgiu, então a lenda das três porteiras, que nada mais é que uma metáfora do próprio ciclo de vida do homem. A porteira da esperança para os que chegavam; a da fortuna para os que recuperavam a saúde; e a da saudade para os que partiam.
E o arraial de Nossa Senhora da Saúde das Águas de Caldas passou a figurar no roteiro dos infortunados, como dádiva prodiga da natureza, como terra privilegiada, num ambiente de misticismo e delenda. Assim começou o atual romance de Poços de Caldas. No histórico livro sobre a cidade, Dr. Mario Mourão assim registrou a lenda das porteiras:

“Alí, até os anos de 1882, havia em Poços de Caldas três porteiras:
A da Esperança, a da fortuna, e a da saudade.
Eram, a porteira do Benedito, filho do Teodoro bem na beirada das fontes, de fronte o barranco do Conde Prates, a do Vicente Petréca no ponto, em que começa a Vila Nova, pouco adiante da Rua Santa Catariana, e a do João Sabino, na ponte ainda existente, frente aos Macacos.
A da esperança se abria para a estrada de ferro, que vinha vindo e ainda não chegara, para São Paulo e para o Rio, e o resto do Brasil, indo buscar os que chegavam de todas as partes, demandando as águas termais, cujo prestígio de cura já tinha se esparramado pelos quatro pontos cardeais.
O negro Benedito era irmão de leite do jovem Agostinho Junqueira. Mamaram o mesmo leite em seios saudáveis e repletos da mulher do Teodorinho, que só reservava as sobras para o próprio filho, enquanto o sinhozinho moço ia se desenvolvendo grande, robusto e cheio de vida.
E o Teodorinho ensinou aos dois filhos a arte de ser valente, trouxe das viagens de Santa Cruz as melhores armas que os dois manobravam, fez de ambos os heróis das cavalhadas de 1863. E estudaram na mesma escola. O pretinho apenas não tinha o porte alto e cheio de robustez do velho jequitibá que foi fundador de Poços de Caldas.
O Benedito morreu jovem de estranha enfermidade, que os médicos daquele tempo, como diria hoje, não definiram. O já então coronel Agostinho Junqueira mandou por seus arreios em um saco branco, dependurou no escritório e soltou seu cavalo, libertando-o e, foi a primeira vez que ele chorou, depois da morte de seus progenitores.

O Benedito abria e fechava a porteira, os tapumes eram naturais, constituídos de brejos, ribeirões e mata virgem da serra, e dos morros que ninguém podia penetrar.
Passado o ano da captação prendendo as águas termais o gado se desinteressou, porque não havia mais aquele saboroso e disputado barro branco,(Tinha sabor salgado) e depois de 1886 o trem de ferro facilitou a abundante chegada do sal.
Assim, o Benedito cansou de tanto abrir e fechar a porteira, e uma bela noite arrombaram-na. A entrada da esperança de se escancarou. E hoje, os viandante que chegam na avalancha do progresso, não se lembram mais do pobre Benedito.
A porteira da fortuna, alí no Vicente Petreca, abria-se para esse interior bravo e por alí penetravam os comitivas dos passageiros, as liteiras com enfermos que não podiam cavalgar e os indefectíveis cargueiros, assim como vinham também essas tropas sem número, trazendo o que se podia vender, para levar remédios, sal, querosene, tecidos e todos esses inúmeros apetrechos da civilização. Chamavam-na porteira da fortuna porque todos que a atravessavam ganhavam ou a saúde, o se beneficiavam com enorme compensações financeiras.
Acima de todos quem mais benefícios percebia, era sem dúvida seu guardião, o Vicente Petreca. Era um italiano retaco, bigodudo, devendo ser do sul, porque era muito moreno. Tendo vindo para nossa terra muito antes da imigração. Veio e navio, fazendo parte da tripulação, desembarcou no Rio e deu fora terra adentro com a única fortuna de que dispunha, Uma vibrante mocidade e uma sanfona quase uma concertina que tocava admiravelmente. No Rio recebeu seu ordenado, tomou um trem qualquer e foi parar em Santa Cruz. Era o destino. Gostou daquilo e o seu espírito aventureiro fez com que se imiscuísse em uma vasta tropa, que vinha para os cafundós do sul de Minas, até que veio parar em Poços de Caldas. Era rancheiro, casara-se com uma brasileira, devendo haver ainda nesse mundo de Deus um grande numero de Petreca.
Os tropeiros gostavam daquele italiano forçudo, que os ajudava a descarregar, que lhes dava conhecimento da macarronada e lhes ensinava a beber vinho da Toscana.
Organizou uma orquestra com Miguel Rebeca, enfrentando seu arremedo de violino, e mais tarde, o Raimundo Broca, no violão e um tocador de clarinete, de nome Guedes, que veio de Machado. Ganhavam e se divertiam.
O Vicente Petreca além de prosperar, era home de absoluta confiança do Signore Coronelo Agostinho. Era lembrado com carinho por todos que tinham mais de uma vez atravessado pela sua porteira. Até que um dia o pobre Petreca entrou pela terceira porteira.
Esta era a do pasto do João Sabino, que no bairro inteiro só tinha uma habitação – era a casa do mortos. O velho cemitério, o velho cemitério, rodeado de um valo no fundo, cheio, cheio de serpentes, sobretudo de jararacas, com madressilvas e espinhos, de que todos evitam de se aproximar. João ao Sabino era um velho de voz macia, bondoso, muito amável, todo branco, vestia sempre roupas muito alvas que suas filhas, a Emiliana, Heliodora e a Cota, ainda viva, a Deolinda, que se casou com um ricaço, o major Pedro Alvas Coelho, com negócio ali no Coriolano, cuidavam com muito carinho. Essas quatro moças tudo fazendo para rodear de carinho a velhice adiantada de João Sabino. Este foi o primeiro agente de correio de Poços de Caldas, com 30 cruzeiros por mês e ainda tinha que dar casa para a repartição e comprar o lacre. A agencia foi depois aproveitada para uma venda de pés- de moleque, deliciosas brevidades e um biscoito seco, que ninguém podia imitar, segredo de sua velha esposa.
No entanto, apesar da bondade do João Sabino, todos tinham medo de buscar a chave do pasto, do fatídico pasto do João Sabino, uma espécie de chave de São Pedro, enorme e que dava entrada, mas não dava saída.
Essa era a porteira da saudade. Saudade dos que ficaram e saudade dos que emergiram na eternidade.
Mas, oh dureza dos fatos. Lá veio o dia que o próprio João Sabino atravessou a sua porteira para nunca mais voltar.
E a lenda continua…
A porteira do progresso se escancarou para o progresso e a felicidade trazendo para a nossa já metrópole essa onda de frequentadores certos.
E também a da esperança, essa se acha voltada para o resto do Brasil e da América, que cada vez mais acorre mais em demanda da nossa miraculosa estância de águas.”
Sem perder a fantasia que a fez famosa a cidade se abriu para outros rumos. Vieram a era dos cassinos, depois a era da lua de mel seguida da industrialização, sem que a cidade perdesse o seu esplendor urbanístico e sua primeira vocação de ser hospitaleira e bela, a impressionar a todos que aqui se aportam, mas a chegada do progresso tem seu preço. A corrida do dia-dia e, o crescimento populacional reduzem ou apagam o encanto.
A cidade, hoje com quase 200 mil habitantes se procura. Como diz o texto do antropólogo Stélio Marras: Ela clama pelo reencatamento.

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