Em tempos de Pandemia

Roberto Tereziano

Era final dos anos 70, acho que 1978. Voltava de um congresso sobre serviços sociais que naquele ano aconteceu em Maringá-PR, a cidade canção. A viagem á aquele estado já nos tinha revelado certas surpresas. Passando por várias cidades do Paraná deparamos com dezenas de caminhões lotados de agricultores, muitas vezes, famílias inteiras que traziam nos olhos e no coração a estampa de retirante.  Como se fossem milhares de “Severinos”  fugindo da seca do nordeste. 

Eram paranaenses agricultores que passaram uma vida trabalhando na cultura do café que deixavam o estado em busca de emprego em plantações de café de outras pragas. Se parecia-nos contraditório que em um estado com tantos cafezais  estivesse faltando trabalho para aquela massa de agricultores. Não nos foi possível conversar com nenhum deles.

Quase chegando ao nosso destino passávamos por Apucarana-Pr, e uma “maravilha” tecnológica nos oferecia a resposta que não tínhamos sobre os retirantes desgraçados cortando estradas  rumo ao desconhecido.

Eram máquinas enormes, uns cagalhões gigantescos que como uma grande epidemia, estavam invadindo o estado do Paraná.

Milhares de pés de café estavam sendo cortados  e centenas de cafezais  que antes eram locais de trabalho para aqueles retirantes que encontramos no caminho, estavam sendo destruídos e queimados. O solo antes  ocupado pela rubiácea que já foi chamada de ouro verde daria lugar para a soja. Não havia mais lugar nem trabalho para tantos trabalhadores do café. E o que era ainda mais assustador: As maquinas gigantescas eram quase autômatas. Um ou dois homens apenas, controlavam o mostrengo tecnológico que  sozinho fazia o trabalho de dezenas de agricultores, Arava, sulcava, plantava, colhia selecionava e replantava a soja. 

Uma maquina sozinha expulsava dezenas de Severinosretirantes de uma das terras mais férteis do Brasil e da sua terra natal e exportava os lucros para os cofres do “Tio San.”.

 No hotel da avenida que leva o nome com compositor mineiro Joubert de Carvalho, que escrevera em um dosversos da canção que deu nome a cidade, “depois que tupartiste tudo aqui ficou tão triste eu garrei a imagina” veio outra surpresa também ligada à agricultura; O suco de laranja servido tinha uma estranha cor avermelhada. Eu nunca havia visto laranjas daquela cor. Perguntei ao garçom e ele informou que se tratavam de laranjas  chilenas.  Era um tanto estranho o uso de laranjas importadas em um estado que também produzia  a fruta. Qual seria a explicação?

  Terminado nosso evento em Maringá, e já voltando para Minas, encontramos na divisa entre o Paraná e São Paulo um transito bastante lento e mais a frente uma grande barreira policial.

Nosso carro e centenas de outros eram direcionados para um determinado ponto.  Do porta- luvas ao porta –malas, bagageiros e demais espaços possível, tudo era vasculhado e revirado. Estranhado aquela rigorosa ação perguntei a um dos policiais o que estava acontecendo.

 Naquele ano uma grande epidemia havia infestado os laranjais do Paraná. Uma doença chamada Cancro cítrico praticamente contaminara todos os laranjais e milhares de árvores frutíferas foram não só cortadas mais ainda queimadas para eliminar tal praga. O estado estavaimportando laranjas do Chile e em  todas as rodovias que ligavam outros estados ao Paraná se criaram barreiras de inspeção,  uma grande operação para impedir que a doença cítrica se espalhasse por outros estados.

Como a doença  era transmitida pela casca da laranja a fiscalização examinava todos os veículos para que laranjas com casca não ultrapassassem a outros estados. Semelhante ao que estamos vendo agora com o corona vírus, o estado foi isolado até que se teve a certeza que a possibilidade de infestação estivesse eliminada. Foi a primeira vez que vi de perto uma barreira sanitária para impedir a propagação de epidemia.

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