Exposição reúne pinturas monumentais inspiradas em trajetórias de mulheres negras marcadas por resistência

Poços de Caldas (MG) – Historicamente, mulheres negras tiveram papel fundamental na construção da sociedade brasileira, mas suas trajetórias foram, muitas vezes, invisibilizadas ou reduzidas a personagens secundárias da história. É justamente esse lugar que a artista visual Dalmoni Lydijusse propõe ressignificar na exposição “Apesar De”, em cartaz de 11 a 26 de julho, no Museu Histórico e Geográfico de Poços de Caldas, integrando a programação do Festival de Inverno 2026.
Resultado da residência artística realizada no Instituto Pretos Novos (IPN), no Rio de Janeiro, em 2025, a mostra reúne uma série de pinturas monumentais que retratam mulheres negras cujas trajetórias atravessam memória, ancestralidade, resistência e permanência cultural.
A partir dessa experiência, Dalmoni constrói uma investigação visual sobre representatividade, deslocando essas mulheres do lugar historicamente imposto pelo apagamento para o protagonismo de suas próprias histórias.
Por meio da pintura, a artista desenvolve uma poética visual que confronta os processos históricos de invisibilização da população negra, evidenciando vidas que persistem e florescem apesar das violências e exclusões produzidas ao longo dos séculos. Cada obra é acompanhada por textos que apresentam o contexto das mulheres retratadas, ampliando o diálogo entre arte, memória e experiência social. “Cada pintura nasce de um encontro. Meu desejo nunca foi falar por essas mulheres, mas criar um espaço para que suas existências fossem reconhecidas em toda a sua potência. São histórias que resistiram ao tempo e que continuam produzindo futuro” diz a artista.
A exposição apresenta personagens como Mônica (Insubmissa), Mãe Sara, Dona Orlanda, Dona Celestina, Tia Lúcia e Dona Penha, mulheres que representam diferentes formas de liderança, espiritualidade, educação, cuidado e preservação da cultura afro-brasileira, reafirmando a potência de seus legados e a importância de suas existências para a construção da memória coletiva.
Cada retrato apresentado em Apesar De parece interromper o fluxo acelerado do cotidiano para convidar o olhar à permanência. São mulheres que, durante muito tempo, ocuparam margens impostas pela história, mas que aqui assumem o centro da cena não apenas como personagens, e sim como autoras de legados que continuam moldando territórios, afetos e formas de existir. Diante de cada pintura, o que se revela não é apenas uma imagem, mas uma presença que insiste em permanecer.
Talvez a maior potência da exposição esteja justamente naquilo que ela devolve ao público: a possibilidade de olhar para essas mulheres sem os filtros do apagamento. Ao reunir arte, memória e ancestralidade, Dalmoni Lydijusse constrói um convite para reconhecer que algumas histórias nunca deixaram de existir elas apenas esperavam um espaço onde pudessem ser vistas, ouvidas e celebradas em toda a sua dimensão.
A arte como ponto de partida para o diálogo
A abertura da exposição será marcada por uma roda de conversa, que amplia as reflexões propostas pelas obras e reúne diferentes perspectivas sobre memória, identidade, religiosidade, cultura e representação da mulher negra.
Participam do encontro a artista Dalmoni Lydijusse, a sacerdotisa de Umbanda Ana Maria de Paula Cruz (Mãe Ana), presidente da Associação Afro Ancestral de Poços de Caldas e representante da Câmara Setorial de Culturas Tradicionais do município; o psicólogo e professor universitário Renato Ramos, mestre em Psicologia Social pela USP e especialista em Psicanálise: Teoria e Clínica pela PUC; e a produtora cultural, curadora e empreendedora Gabriela Gonçalves, fundadora da Black Boutique Moda Afro, cuja trajetória conecta arte, ancestralidade, identidade e expressão por meio da cultura e da moda.
A mediação será conduzida pela jornalista Mariane David, propondo um diálogo sobre os caminhos pelos quais a arte pode ampliar vozes historicamente silenciadas e contribuir para novas formas de compreender a memória, representatividade e pertencimento.
Mais do que apresentar pinturas, “Apesar De” convida o público a refletir sobre quem constrói a memória coletiva, quais histórias permanecem invisibilizadas e como a arte pode atuar na valorização de trajetórias que seguem transformando territórios, comunidades e gerações.
Em um tempo em que tantas narrativas disputam espaço, Apesar De escolhe caminhar na direção contrária: desacelera o olhar para devolver nome, rosto e presença a mulheres que sustentaram comunidades, preservaram saberes e atravessaram gerações. Não para reescrever a história, mas para ampliar quem tem o direito de contá-la. É nesse gesto que a pintura deixa de ser apenas representação e passa a ocupar um lugar de reconhecimento, memória e permanência.
Serviço
Exposição: Apesar De – Dalmoni Lydijusse
Período: 11 a 26 de julho de 2026
Local: Museu Histórico e Geográfico de Poços de Caldas – Villa Junqueira
Endereço: Rua Padre Henry Mothon, s/nº – Centro
Abertura
11 de julho (sábado)
14h30 às 16h30 – Abertura da exposição
15h às 16h – Roda de conversa com Dalmoni Lydijusse, Ana Maria de Paula Cruz (Mãe Ana), Renato Ramos e Gabriela Gonçalves, com mediação da jornalista Mariane David.





